Em busca do Mundo de Cima

- Image by tankesopp via Flickr
Comecei a escrever este ensaio enquanto lia o livro “A cadeira de prata”, parte de “As Crônicas de Nárnia” e, impressionado com a beleza das palavras de C.S. Lewis, acabei com vontade de citá-lo.
Imagine que você está em uma sala com uma feiticeira malvada e esta tenta convencê-lo de que o mundo que você conhece e sempre conheceu não passa de um sonho, de uma ilusão, e que sua liberdade antes vivida nesse mundo também não passa de um sonho e, como a feiticeira é, enfim, uma feiticeira, suas palavras quase te convencem, até que um amigo resolve atrapalhar o feitiço e começar a falar
Uma palavrinha, dona – disse ele, mancando de dor -, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo – árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um narniano, mesmo que Nárnia não exista. Assim, agradecendo sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que as nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz.
– As crônicas de Nárnia – A cadeira de prata
O que brota em minha mente ao ler um texto como esse são duas coisas (que, para mim, na verdade são uma só):
- Não, de forma alguma devo me conformar com esse mundo ou com suas injustiças e irregularidades. Ainda que o meu senso de justiça e igualdade possam estar projetados em uma utopia (e, admito, às vezes parecem distorcidos), não devo de forma alguma aceitar uma existência que não realize todas as potencialidades da vida;
- No mesmo sentido, ao ler esse discurso do paulama Brejeiro sobre o mundo de cima, não posso me esquecer da minha (nossa) própria pátria celeste (ou a Jerusalém celeste, para quem preferir) e da busca eterna por ela.
E aí está a parte divertida: São Tiago já dizia que a fé sem obras não possui nenhum valor e, portanto, buscar o mundo de cima nada mais é que buscar tornar essa fossa que é o mundo atual no próprio mundo de cima, ou a busca é infundada. E, portanto, as duas idéias tornam-se uma só…
Enfim, eu poderia tentar estragar ainda mais os comentários de Brejeiro, mas vou ficar por aqui. Espero resistir à vontade de apagar esse artigo e só dizer que “As Crônicas de Nárnia” é uma ótima pedida para as férias. Vale a pena ler, pois está recheado de uma história interessantíssima e recheada de grandes comentários.
Li suas setecentas e poucas páginas em aproximadamente três (ou quatro, não me lembro) semanas atarefadas e, novamente, recomendo.
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- Publicado em:
- 6.26.06 / 9pm
- Categoria:
- filosofia
- Tags:
- C.S. Lewis, Narnia
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